quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Morra o Bravio!



E pronto, vou-me embora uma vez mais!
Por aqui, a mesma assertividadezinha de sempre. O poder político continua a fazer gato-sapato dos professores, a servir-se deles para tudo e mais alguma coisa, a apontar-lhes todas as culpas e mais algumas, a descarregar sobre eles todas as incumbências, a atribuir-lhes todas responsabilidades e… no pasa nada! Os professores fazem mea culpa, acumulam até à depressão e… os bloggers registam, denunciam, inquirem, analisam, demonstram as pertinências e as impertinências, ganham estatuto, prestígio… Mas, no essencial, no que realmente conta, a caravana passa, e passa como quer e lhe apetece, com exuberante desfaçatez, por vezes.
O Bravio — tal como o Dardomeu, tal como o DaNação — não é blogue para estas águas mornas. Dizem que é interessante, até o recomendam no blogroll (o que, muito sinceramente, agradeço), mas poucos são os que partilham os seus uivos. Se são interessantes, por que motivo não lhes arejam o voo? Já sei que ninguém tem obrigação de o fazer, mas… se são benéficos para as aspirações da classe docente e para a Escola Pública… se um simples link não custa dinheiro… o que poderá explicar tamanha indiferença? Não acredito que seja medo, medo de que, na escola de cada um, se pense que Senhor Tal e Senhor Tal & Qual partilham (ou recomendam) um determinado texto do Bravio por subscreverem as suas nefandas ideias, as suas tiradas fraturantes, os seus uivos iconoclásticos, as suas retrógradas heresias. Não acredito que tenham medo disso e das inerentes consequências. Não, não será por isso, pois coragem é coisa que anda por aí aos pontapés. A verdade é para se dizer: só pode ser por não concordarem, seja com o conteúdo, seja com a forma ou com ambas. Nas escolas, está tudo mais que morto e enterrado. Andam de pé, ensinam, mas são zombies, zombies daqueles revolucionários que foram enforcados duas vezes no Terreiro do Passo. Por aqui, faz-se mais ou menos o que fazem os alunos quando há uma briga no recreio: fotografa-se, filma-se, para depois publicar, denunciar, comentar… Entretanto a vítima leva pancada de meia-noite sem que ninguém tenha a ousadia de intervir. Somos todos demasiado “jornalistas”. As armas de outrora (que nunca estiveram bem afiadas) servem agora apenas para pendurar alheiras no fumeiro.
Podem acusar-me de também não partilhar os textos das grandes superfícies da (des)dita blogosfera docente. Objetivamente, é verdade, mas… pensem bem: quanta soberba seria necessário eu possuir para achar que entre as minhas habituais 100 visitas diárias (não conto aqui as certíssimas 250 dos desconfiados mainframes americanos) há leitores que não frequentam os maiores blogues, que costumam ter, em simultâneo, seja qual for o minuto, mais leitores do que o Bravio num dia de 24 horas? De facto, só mesmo por muita soberba ou por lustrada e subserviente reverência, coisas que não fazem parte do meu código genético.
Morre o Bravio — fecha-se a toca, mas a alma não se extingue — por culpa própria (uiva cacofonicamente e à moda antiga), mas não só, não só! Pena que o Lobo, que tão escasso tem o tempo, não possa justificar a si mesmo, nem aos seus, tanto tempo despendido, tanta afronta suportada, tanta retaliação sofrida… por tão pouco (quase ninguém). Sobram, diariamente, a indiferença, o silêncio e a negridão. Morra, pois!

But the wolf still remains!

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Ditaduras do Medo


Decidi, antes do prometido para o dia de amanhã, recuperar (com algumas adaptações) um texto que escrevi para o Dardomeu, no dia 17 de setembro de 2008. Penso que é um bom aperitivo para o Dia da Restauração da Independência.

Muitas são as pessoas que não acreditam na possibilidade do regresso a um regime ditatorial. De certa forma, compreendo e até concordo, em parte (uma parte muito pequena): uma ditadura provinciana, como a de Salazar, não seria possível. Seria demasiado simplória e descarada para os nossos dias. Não, que o nosso povo já não tem as taxas de analfabetismo dos anos quarenta, cinquenta e sessenta! Mas recordo que Salazar, tal como Hitler, foi eleito, o que fazia pressupor a possibilidade de o derrubar através do voto. Mas tal não aconteceu. A História repete-se, mas sempre com roupagens diferentes, com novas e múltiplas variedades. A nossa vida é um carrossel, a História é um carrossel, o planeta é um carrossel que gira em torno do Sol, o qual, por sua vez, gira em torno da Via Láctea, que gira em torno… Vivemos num gigantesco carrossel de carrosséis.
Estou convencido de que uma nova ditadura, mais tarde ou mais cedo, virá: mais subtil, mais sofisticada, mais complexa, mais alojada na alma das pessoas, mais difícil de arrancar. Será, na fachada, parecida com a Democracia. Tal como um vício, apenas se tornará evidente quando a tivermos entranhada na carne e nos ossos.
Uma tal ditadura, no meu entender, construir-se-á sobre um medo intrínseco, latente, que os cidadãos gerarão e cultivarão bem no fundo do seu âmago. Começará por uma quase instintiva sensação de medo; depois evoluirá para o medo de uma ou outra retaliação; mais tarde, ganhará a forma de medo de inconsciente, um medo puro, sem causas aparentes nem razões plausíveis, um medo incorporado na alma. As ditaduras do futuro serão, pois, alicerçadas, não na força, não na repressão exógena, mas no medo que as pessoas albergam, lentamente, no seu peito. Essa perspetiva antecipada das dores e das perdas vindouras inibe a vontade, inibe o carácter, os naturais impulsos de liberdade do ser humano. Desse modo, as novas ditaduras serão mais duradouras, perpetuar-se-ão, pois não haverá golpes de estado capazes de as expulsar dos cérebros amedrontados. O Tirano estará no cérebro e na alma de cada cidadão.
O medo é o pior dos hóspedes. Se o albergamos, ele depressa se instala e se apodera nosso cérebro. Quando nos bate à porta, só nos resta repeli-lo, persegui-lo, tiranizá-lo. Quando os animais selvagens o leem nos olhos e no cheiro daqueles que os precedem na escala alimentar, caem sobre eles sem piedade. Semelhante atitude, tomam os seres humanos que, obedecendo a idênticos impulsos de sobrevivência, se tornam predadores de outros seres humanos que os precedem na escala hierárquica, seja política, seja social, seja económica, seja profissional.
Neste perigoso tempo de crises (falo no plural), repelir o medo não basta. Devemos também repelir os mensageiros que o trazem constantemente até nós. É a melhor forma de o mantermos longe das nossas muralhas.
Nos tempos que correm, também eu sinto medo, como toda a gente. Caso contrário, não passaria de um idiota, um imbecil, de um indigente incapaz de ler o que me rodeia! Contudo, combato-o diariamente, como combato as ervas daninhas que, constantemente, querem tomar posse do meu jardim! Tenho medo do que os meus olhos veem! Mas enfrento-o, combato-o, domino-o. SOU O TIRANO DO MEU MEDO! É esse o (único) caminho!

domingo, 27 de novembro de 2016

Quadro de Gratidão



O Bravio nasceu há 506 dias. Com este, tem 480 artigos publicados (que não são simples tuitaços) e 870 comentários (que também não são meros “gostos”). É chegada a hora dos devidos agradecimentos.
Agradeço, em geral, a todos aqueles — fosse por que motivo fosse — dispuseram de algum do seu tempo para vir aqui ler as minhas larachas. Agradeço também, em particular, a quem teve a generosidade partilhar — através do correio eletrónico, no seu blogue ou no Facebook — alguns dos meus artigos, dando, assim, mais aragem aos meus uivos. Agradeço, por fim, de modo muito especial, aos leitores que, muito generosamente, quiseram deixar o seu testemunho na caixa de comentários. Estão todos (os que deixaram um nome) no meu dourado Quadro de Gratidão.
Permitam-me, no entanto, que destaque três mulheres desse quadro: a Maria, por ser dela o primeiro comentário do Bravio e por se ter mantido sempre por cá; a Anabela Magalhães, pela sua constância e pelo seu companheirismo a toda a prova; a Leonor, por ser, de longe, de muito longe, quem mais me acompanhou nesta dura caminhada. Serão muito poucos os artigos que não têm o seu alento. Quando a fé e a crença esmoreceram, quando a própria solidão se tornou quase insuportável para o lobo solitário, foi a Leonor, quase sempre a Leonor, que “resgatou” o Bravio. Permita-me, pois, estimada (apesar de desconhecida) amiga, que lhe dê um abraço muito especial.
Muito obrigado a todos!

PS - Queiram desculpar-me, se, por lapso, esqueci alguém

sábado, 26 de novembro de 2016

Revisão da matéria dada

relativamente aos múltiplos frontispícios do Bravio, um blogue de um só rosto e de um lobo só.
A qualidade final do vídeo não faz justiça à qualidade das imagens que estão na sua génese, mas, como não se trata de um concurso de beleza…


quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Aos meus "mecenas"



Sou um lobo solitário, mas não sou ingrato. Sei reconhecer e agradecer a quem me dá alento, a quem põe asas nos meus uivos bravios, enfim, a quem recomenda a leitura do Bravio. É o caso dos editores dos prestigiados blogues que compõem este mosaico: Anabela Magalhães, Alexandre Henriques, Paulo Prudêncio, ArlindoFerreira, José Morgado, Duílio Coelho, António Duarte e Reitor. A todos vós, que me tendes no vosso blogroll, o meu agradecido abraço! É uma honra poder estar na vossa companhia, ainda que com um papel francamente mais modesto.
Os meus leitores em geral e aqueles que fazem questão de deixar um sinal da sua passagem, algumas palavras feitas de água fresca, envolvê-los-ei noutro amplexo.
Como faz hoje 25 anos que o Freddie nos deixou, sublinho esta dedicatória com um trecho dos Queen, que vos dedico.
Luís

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

O Dê da nossa




Toda a gente sabe que os Dê são brutos
Não deixam tramas por tecer
Nem vinganças por fazer
São muito muito astutos
Muito muito astutos
Toda a gente sabe que os Dê são brutos

Toda a gente sabe que os Dê estão cheios
De vontade de mandar
E os colegas rebaixar
Com ou sem rodeios
Com ou sem rodeios
Toda a gente sabe que os Dê são feios

Mas o Dê da nossa não
Porque o Dê da nossa é são
O arquétipo da perfeição
O pináculo da criação
Dócil criatura
De outra espécie qualquer
Que serve para fazer felizes
Os amigos que quiser
E tudo o que os outros são
Tudo o que os outros são
Tudo o que os outros são
O Dê da nossa não
O Dê da nossa não

Toda a gente sabe que os Dê são bichos
E que tratam os que não gostam
Das propostas impostas
Abaixo de lixo
Abaixo de lixo
Toda a gente sabe que os Dê são bichos

Toda a gente sabe que os Dê são parciais
Que fazem uns jeitinhos
Metidos nos seus cantinhos
Na na na na na na na na na na
Toda a gente sabe que os Dê são parciais

Mas o Dê da nossa não
Porque o Dê da nossa é são
O arquétipo da perfeição
O pináculo da criação
Amável criatura
De outra espécie qualquer
Que serve para fazer felizes
Os amigos que quiser
E tudo o que os outros são
Tudo o que os outros são
Tudo o que os outros são
O Dê da nossa não
O Dê da nossa não

Bravio

domingo, 20 de novembro de 2016

A sina da blogosfera docente



Interessa-me, e muito, tentar perceber para onde vai o ensino. Quanto à dita “blogosfera docente”, saber para onde caminha, ou deve caminhar, é coisa que já não me preocupa absolutamente nada. Desejo apenas que se mantenha viva, com mais ou menos energia, com mais ou menos acutilância, com mais ou menos visibilidade, mas sempre múltipla, diferenciada, plural, ousada, inclusiva, democrática, livre e independente. Há lugar para todos. Ainda assim, jamais seremos suficientes.
Como em muitas situações da nossa vida, diz-me a minha mente montanhesa que, neste caso, basta saber para onde não devemos ir. E o meu instinto lupino acrescenta que, acima de tudo, há que permanecer vivo, para poder alcançar; que conhecer e evitar os perigos é missão primordial. De que serve cravar os olhos no horizonte, para espreitar o que ele esconde, se não virmos exatamente onde estamos a pôr os pés? O que adianta sondar os amanhãs, se o nosso chão é incerto e nos pode fazer resvalar a qualquer momento?
Para onde não deve, então, deixar-se rebolar a referida esfera blogueira? Tenho algumas ideias, embora chochas. Na minha parca maneira de ver, deve evitar:
1-      egocentrismos, individualismos, narcisismos, vaidades e seus sucedâneos;
2-      interesses individuais;
3-      politiqueirices tendenciosas;
4-      odiozinhos e rivalidades de estimação;
5-      a cartelização (tendente ao monopólio da crítica e das “audiências”);
6-      a escola do elogio mútuo e da mútua citação, sobretudo entre milionários do “share” (nem sequer é inteligente, pois partilham exatamente o mesmo público leitor);
7-      a eleição e adoração de um papa;
8-      a nomeação e adulação de cardeais;
9-      a tentação de definir um grupo canónico (portas abertas ao pensamento canónico e às heresias);
10-   a tentação de excomungar os “bispos negros”;
11-   a tentação de menosprezar ou ignorar o contributo dos párocos das “pequenas freguesias”;
12-   a tentação de consagrar o critério da quantidade como fé da nossa “missão” (à luz dessa “religião”, em Portugal, Quim Barreiros seria melhor que Leonard Cohen).
E muito mais havia a dizer.
Em suma, a dita “blogosfera docente” deve, no meu o primário e mui selvagem entender, evitar o perigo de desbaratar os bens maiores (referidos no primeiro parágrafo), para não se transformar numa blogosfera doente. Quanto a mim, continuarei bravio, a escrever quando me apetecer, a dizer o que me der na gana, pouco me importando com o que Suas Eminências pensam, se gostam ou não gostam, se partilham ou não… Enfim, continuarei a lançar o meu uivo cacofónico contra as montanhas rochosas, exercendo o meu pessoal e intransmissível direito de ser lobo, um lobo danado de livre.
Hum!!! Como é sensual e revigorante esta brisa!

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

De corpo inteiro




Há dias, conversando com colegas — professores, claro — no sossego de uma esplanada de largas vistas sobre a cidade, um deles, a propósito dos silêncios e das resignações, catapultou para cima mim esta frase: “Mas eu preciso da profissão para viver!”. Percebi. Percebi mais do que ele, certamente, julgou. E limitei-me a falar com os olhos.
Não sabia, até àquele instante, que eu não precisava da profissão para viver. Mas não fiquei completamente feliz com a notícia: se, por um lado, passava a estar livre para tudo poder dizer, sem medo das consequências, por outro, acabava de ver cair os minigalões de mini-herói, que, no segredo das minhas mais íntimas catacumbas, ousava ostentar, diante do meu narcisíssimo espelho. Afinal, o que arrisca verdadeiramente aquele que tem várias vidas? Arrisca-se, provavelmente, a ter o castigo de uma vida melhor. Antes fosse!
Perdi o meu pai aos nove anos, saí do ninho materno aos treze, saí do país aos dezanove, rumo a França. Voltei alguns anos depois, já homem, com mais conhecimentos e experiência de vida. Fiz o secundário de ciências e o de letras, tenho um curso de agricultura, alguns graus da Alliance Française, a frequência de Literaturas Modernas na Sorbonne, uma licenciatura e uma pós-graduação em ensino. Já lecionei no 2.º ciclo, no 3.º, no secundário e no superior (experiência de que raramente falo, porque não me causa orgulho nenhum). Todavia, quando comecei a minha carreira de professor, prometi a mim mesmo que seria em exclusividade: nem acumularia, lecionando em duas escolas, nem daria explicações. Estou incólume, mas não critico (embora inveje, por vezes) quem o faz. Já tive e já perdi muitos familiares, já fiz e já perdi muitos amigos. Estou tão habituado a ganhar como a perder. Nem vou ao céu quando ganho nem ao inferno quando perco. Sou assim.
Fui traído nas mais modestas expectativas que a minha carreira me criou. Muitos baluartes, oferecidos como seguros, ruíram completamente. Há um punhado de anos atrás, quando mais precisava — dois filhos na universidade e um prestes a iniciar a escolaridade — sofri, tudo somado (cortes, perdas de subsídios, perdas de bolsas de estudo e novos impostos) um rombo de mais de 40% no meu poder de compra. Ainda assim, não vacilei. Como muitos sabem, por esse país fora, não me encolhi (bem pelo contrário), nem me remeti ao anonimato (vim para a linha da frente) nem abdiquei das promessas só a mim mesmo feitas no início da carreira.
Felizmente (o meu pai era mestre de obras), fui educado para “tudo” aprender a fazer. Felizmente, adoro (ADORO!) fazer de tudo um pouco. Felizmente (disso orgulho-me muito), tenho alguma luz nas mãos. Sou, como o povo diz, o homem dos sete instrumentos: trato do jardim; pinto a casa por dentro e por fora; ergo paredes e faço divisões, com todos os acabamentos; faço e reparo canalizações e instalações elétricas; já renovei completamente o telhado; sou, há muito tempo, o mecânico dos automóveis da casa; faço quase todas as reparações dos eletrodomésticos; asseguro a minha parte das tarefas domésticas, que muitos ainda consideram foro das mulheres: trato da roupa da família (lavagem, secagem e passagem) e adianto as refeições, quando a minha mulher, também professora e só professora, tem de chegar um pouco mais tarde. É assim aqui em casa. E não perdi, tanto quanto julgo saber, nenhuma masculinidade: nem da cintura para cima nem da cintura para baixo.  
Além destes meus afazeres caseiros, ainda consigo arranjar tempo para a pintura (de vez em quando) e, mais amiúde, para a escrita (que julgo ser literária, embora modesta); e ainda consigo ser um professor esforçado (embora muito fraco); e ainda consigo arranjar uns tempinhos semanais para, em regime de voluntariado, apoiar os meus alunos; e ainda consigo não acumular nem dar explicações; e ainda consigo vir para aqui, quase todos os dias (sem rede nem colchão), dar a cara e o peito às balas, distante de qualquer interesse ou proveito individual, semeando mais vinganças do que abraços solidários.
Sempre fui como sou e sempre fiz o que agora faço. Já o fiz com e sem necessidade, mas sempre com prazer e muito orgulho. Para além desta luta (supostamente pela classe docente) ainda tenho de lutar contra os dias do mês. Mesmo assim, doei a minha herança a quem precisa mais do que eu. E ainda não me arrependi.
É este o bravio que aqui mora. Posso parecer um cão, mas tenho o temperamento de um lobo, não para matar, apenas para resistiiiiiiir. Ia dizer que nada temo — porque não temo o desemprego nem a pobreza; porque sei ser feliz com muito pouco e em qualquer lugar —, porém, não estaria a ser completamente verdadeiro. Na verdade, há algo de que tenho muito medo: a velhice.  Ajoelhar-me-ei diante de quem puder usar tal arma contra mim. Caso contrário… estou à mercê! Mas não tentem passar-me a mão no pelo.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Leonard Cohen interview




Leonard Cohen entrevistado por Stina Dabrowski. A introdução parece prometer um diálogo em sueco, mas não, é em inglês. 


Interessantíssima crónica de Santana Castilho


Um reality check às políticas para a Educação

Ao completarem-se 30 anos sobre a aprovação da Lei de Bases do Sistema Educativo, este poderia ser o momento adequado para fazermos um balanço rigoroso dos caminhos que a Educação trilhou em democracia e, sobretudo, para definirmos o que queremos para o futuro.
Ao optar hoje, neste contexto, por um reality check, passe o estrangeirismo, às políticas do PS para a Educação, o meu objectivo não é opor-lhes certezas (que as tenho) mas antes confrontá-las com as interrogações e as perplexidades que suscitam. Com efeito, são as perguntas que podem ser feitas que mostram que as coisas vão acontecendo de modo imprudente, mais por reacção ao fundamentalismo de Crato que por ponderação da oportunidade, da qualidade e da justeza das políticas. Tudo beneficiando de um caudal de águas mornas de aceitação dos problemas mal resolvidos pela impreparação de Tiago Rodrigues e pelos excessos de Alexandra Leitão.
Cedo se tornou claro que a iniciativa pertencia à AR e que o PS não tinha problemas identificados e prioridades estabelecidas. Primeiro foram abolidos os exames nacionais de Matemática e Português do 1º ciclo do ensino básico, na manhã seguinte à tomada de posse do Governo, cujo programa não continha tal medida. Seguiu-se a extinção da PACC, de novo ao arrepio do programa, que apenas estabelecia a suspensão da prova, “procedendo à reponderação dos seus fundamentos, objetivos e termos de referência”. Estranhamente, os deputados do PS votaram contra o programa do seu próprio Governo, António Costa mostrou na AR que não o conhecia e o ministro da Educação, ao invés do que aconteceu, havia garantido que não seriam tomadas decisões sobre os exames sem ser ouvida a comunidade educativa. Não ficou claro quem mandava e quem engolia os sapos?
Seguiu-se a urgência desgarrada de impor, a meio de um ano lectivo, a trapalhada do “Modelo Integrado de Avaliação Externa das Aprendizagens no Ensino Básico”, que recuperou provas que já usámos e se revelaram inúteis, confrontou alunos e professores com três modelos de avaliação, três, num só ano e obrigou à intervenção “salvadora” de Marcelo. Não ficou profetizada a incompetência pedagógica que se seguiria?
No início de 2016, as “Grandes Opções do Plano” alargaram a todos os alunos do ensino básico o conceito, de Maria de Lurdes Rodrigues, de “Escola a Tempo Inteiro” (permanência na escola das 08.30 às 19.30). Não é verdade que o PS ainda não percebeu que mais escola não significa melhor educação? Que cada vez mais as crianças não são crianças? Que não têm tempo para brincar livremente, a actividade mais séria do seu crescimento?
No mesmo documento, o PS lamentava que a taxa de “escolarização efectiva antes dos três anos” fosse apenas de 45,9% e regozijava-se por essa taxa ficar, ainda assim, “claramente acima dos 27,7 % da Finlândia”. Não é verdade que o PS ainda não percebeu que, no caso vertente, taxa baixa é melhor que taxa alta? Que só cresce a necessidade de mais berçários porque aumenta o peso do trabalho desregulado e mal pago? Que a falta de tempo para os pais se dedicarem ao crescimento dos filhos é um problema social real e grave, que não se resolve substituindo pais por professores e técnicos?
Por que razão permanecem incólumes as burocracias sem sentido, que penalizam drasticamente as condições de trabalho dos professores e, por essa via, roubam tempo e dedicação ao ensino dos alunos?
Compreende-se que nada tenha sido feito para alterar o estatuto do ensino particular e cooperativo quando se tomaram medidas efectivas que o derrogaram?
Aceita-se que as mesmas forças políticas que tanto zurziram a denominada municipalização da Educação permitam o avanço dissimulado do processo?
Compreende-se que na legislatura que queria virar a página os agrupamentos, o modelo de gestão das escolas e o estatuto da carreira docente, de Maria de Lurdes Rodrigues, ainda brilhem como se fossem a última Coca-Cola no deserto?
in Público, 17/11/16

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

O preço da palavra alada


Imagem retirada daqui

       Dizer, de cara lavada e erguida, aquilo que apenas alguns, muito poucos, só conseguem verbalizar à sombra do anonimato; dizer, de rosto franco e nu, aquilo que a esmagadora maioria pensa, mas que sufoca e jamais ousará exteriorizar; celebrar a liberdade de expressão, libertando as palavras no reino da autocensura e do silêncio, verbal e espiritual, tem o seu preço, o seu elevado preço. É, porém, o precioso, o inestimável, o impagável preço da palavra livre.
O corso inquisitorial da Freguesia do Silêncio já saiu à rua para predar e crucificar a fonte das palavras aladas. Os confrades estão munidos, como era banalmente espectável, das armas mais torpes, dos estratagemas mais cobardes, dos esquemas mais insidiosos. Trajam a impostora invisibilidade, o falso sorriso, gentilezas mordedoras, e soltam palavras que são flores que se fazem cobras que se fazem facas de sombra, sedentas de almas sãs.
Estão moribundos os dias azuis. Os primeiros assomos crepusculares chamam turbulências e apontam o dedo à paz. Pois que seja. É apenas mais um recomeço, com novos deuteragonistas. Nada de novo. A palavra alada é um uivo das montanhas.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Os precários

Como tema voltou, ontem e hoje, às montras noticiosas, resolvi repescar um artigo que aqui publiquei no dia 31 de agosto de 2015, sobre alguns efeitos colaterais da precariedade laboral na classe docente.



OS PRECÁRIOS

     Ao longo destes penosos dez anos, o corpo docente deste país sofreu a erosão mais severa da sua história, remontando até às origens do ensino público, no período pombalino. Estes dez anos, de ataques constantes, de assédio permanente e de incessante terrorismo, transformaram radicalmente a imagem e a autoimagem dos professores: passaram de referências sociais e culturais a meros precários. Um barbeiro, no tempo do Marquês de Pombal (a cujos pés já tantas vezes nos reunimos), convertido ao ensino era mais respeitado do que um professor atual, dotado de licenciatura, mestrado e doutoramento.
A progressiva proletarização e precarização da classe docente — talvez devesse falar das classes docentes —, iniciada por Maria de Lurdes Rodrigues e continuada, ininterruptamente, pelas duas figuras que lhe sucederam, começou por ser um fenómeno exógeno, embora, desde logo, de fortíssimo pendor trivalente — precarização profissional, psicológica e social — e acabou no tenebroso resultado atual: precariedade endógena, perfeitamente instalada, entranhada até ao subconsciente, nos pensamentos, nos atos e nas omissões. Os professores deste país, além de já não agirem, também já não pensam nem sonham como homens e mulheres livres. Já têm, aliás, medo de pensar, medo de sonhar e, é claro, muito mais medo ainda de agir, para não agravarem o seu precário equilíbrio psicológico, para não porem em risco a sua precária assertividade verbal, para não ferirem mortalmente a sua precária situação profissional ou simplesmente laboral. E é na ampla foz da resignação que todos estes medos, abundantemente, desaguam.
A autonomia deu lugar à subserviência cega, a voz deu lugar ao silêncio aquiescente, o Marquês de Pombal deu lugar aos blogues de ávido consumo de normativos, de editais, de listas de colocação e de exclusão, de grelhas Excel… Aí, os professores apinham-se às dezenas de milhar, como quem espera, numa fila interminável — num centro de emprego, numa repartição da Segurança Social, num guichê do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras… —  por um papel qualquer que se possa traduzir em pão ou medicamentos.
Foi a este triste estado que os professores chegaram. Qualquer barbeiro, do tempo atual, é mais respeitado e respeita-se mais, no exercício da sua profissão, do que um professor. Não é preciso viajar no tempo. Nada a opor relativamente aos barbeiros, mas censuro quase tudo no modo de pensar, de ser e de atuar dos professores, que, amanhã, vão regressar às escolas “de ânimos levantados”, como diz um certo mercenário.

domingo, 13 de novembro de 2016

A comovente carta que a ANDAEP escreveu a Tiago Rodrigues




No pretérito dia 7 de novembro, a ANDAEP (Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas) escreveu a Tiago Rodrigues, o nosso ministro da Educação, uma missiva tão inspiradora, que logo suscitou em mim uma tripla analogia: lembrou-me os relatórios do CNE, os telefonemas que trazem água no bico e… o velho Quitoso.
Verdade seja dita e reconhecida: o CNE está a fazer escola, quer pela forma como estrutura o seu argumentário quer pelo modo como alicerça e tenta credibilizar as recomendações veiculadas: as constantes, e quase exotéricas, referências a estudos, estudos que não faltam, por esse mundo fora, para todos os gostos e ocasiões. Foi exatamente o que fez a ANDAEP, mas com variação sinonímica: escreveu uma carta-relatório fundamentada, já não em estudos, mas em diretores consultados. Também à semelhança dos omnipresentes e omniscientes “recomendatórios” do CNE, a ANDAEP fez uma longa dissertação, para, ao fim de contas, dizer apenas duas coisinhas que moram na alma dos signatários e que podem ser resumidas numa só frase: “Por favor, mantenha este precioso regime de gestão e reforce o nosso poder, atribuindo-nos mais competências na contratação de professores!”. É este o suprassumo da carta. E é também neste ponto que o documento me faz lembrar os referidos telefonemas: muita conversa inicial, muito paleio nos entretantos… até ao verdadeiro motivo, que surge sempre assim como que a talhe de foice. Coisas bem portuguesas!
Contrariando os resultados de um inquérito recente do ComRegras, que evidenciava uma clara e auspiciosa divisão, a ANDAEP diz que os diretores consultados querem continuar a ser o “rosto da escola”(cérebro da escola?), com exponenciada ascendência sobre o corpo docente, sobretudo através do reforço do poder de contratar, de descontratar e de reconduzir. Para a coisa não parecer descarada e umbilicalmente interesseira, lá se vai admitindo que há umas desadequaçõezitas “de alguns coordenadores das estruturas pedagógicas aos cargos”. E também se pede, enfim, com genuíno e comovente espírito democrático, o reforço da representatividade do pessoal docente e não docente nesse temível órgão que é o Conselho Geral. É aqui que entra a lembrança do Quitoso: criaturas que começam a estrebuchar, no precioso latifúndio, aos primeiros sinais da chegada do remédio que vai remover os intrusos e devolver o terreno ao seu legítimo proprietário.
É muito fácil antever como seriam as escolas, se fosse conferido aos diretores, entre outros, o reclamado poder de “reconduzir”. Basta contemplar o deprimente panorama das coordenações. São raríssimos (e em aceleradas vias de extinção) os coordenadores que não são meros veículos de transmissão das ideias e vontades do diretor. Já quase ninguém ousa expor o que realmente pensa, já quase ninguém ousa ser quem realmente é, já não há contraditório que se aproveite… Os órgãos pedagógicos das escolas foram transformados em meros cartórios notariais. É isto, elevado ao cubo, que os diretores realmente querem; é isto que têm em mente quando se apresentam como “rosto” e pedem mais cordelinhos de conduzir. Como é óbvio, se tal acontecer, só reconduzirão aqueles que melhor se deixarem conduzir (de preferência com tração atrás e controlo remoto). 
Como sei que o Senhor Ministro — porque é uma pessoa bem informada e sempre atenta às melhores fontes — visita com regularidade este benévolo blogue, aproveito para lhe fazer, com toda a humildade, mas elevado sentido cívico, a seguinte contrarrecomendação: aceite o conselho do meu colega Mário Nogueira e acabe já com esta Maneira Especialmente Reacionária de Dirigir Agrupamentos (e escolas, claro)!

sábado, 12 de novembro de 2016

A minha gata


Vai fazer dois anos que ma trouxeram. Foram os meus filhos mais velhos, no regresso a casa, para o jantar. Tinham-na subtraído ao asfalto de uma rotunda, paralisada de pânico, completamente encandeada pelos faróis de carros subitamente obrigados a paralisar também, para não a atropelarem. Adormecia espessa e gélida essa noite dezembrina.
Contava-se ainda em dias a sua existência. Estava ensopada de gripe e mal podia abrir os olhitos, remelentos e avermelhados. Ainda nem sequer sabia beber. Pobre bichana!
O meu catraio mais novo tratou imediatamente do batizado, impedindo, desse modo, qualquer tentativa de discussão subordinada ao tema “ O destino do animal”. “Vai chamar-se Kika”, determinou, ignorando completamente tudo o que, inúmeras vezes, havia sido dito sobre novas adoções de animais, por mor dos desgostos passados, dos trabalhos acumulados e das incomodações sofridas, tudo consubstanciado, pela enésima vez, de forma exponenciada, na mais que absorvente  Golden Retriever que tínhamos (e ainda temos): a frenética Mia.
C’um catano! Subitamente, por causa de um nome, tornou-se impossível recusar um animal, acabado de ser batizado debaixo do nosso próprio teto. Um simples nome… acabava de mudar o destino. E tudo por culpa da irreverente espontaneidade do meu mais novo, que deu o facto como consumado, antecipando assim os auspícios do Natal, que, inusitadamente, me entrava assim porta dentro, fazendo-se alegoria naquele corpinho peludo e indefeso, que cabia, enroscadinho e tiritante de frio, no berço das mãos do meu filho do meio.
Depois da inevitável ida ao senhor doutor, foi necessária muita paciência para lhe dar de beber, por uma seringa (enquanto não ganhou força para se defender dessa tortura), para lhe fazer papas que ela pudesse lamber, porque… também não tinha tido tempo para frequentar as aulas de dar ao dente, ou porque lhe tivessem matado a professora ou porque a tivessem arrancado do ninho… Nada de bom, em qualquer caso!
Bem, hoje, quase dois anos volvidos, está como a imagem comprova: bela e misteriosa! Adotou-me como pai. Nada pude fazer. Dá todos os passos que eu dou. Não estou a hiperbolizar: ela segue-me para todo o lado; está, literalmente, onde estou. Desde que abro a porta da rua, com muito cuidado (porque sei que ela está do outro lado, encostadinda) até que me deito, a “minha menina” não me larga: sobe e desce comigo, planta-se ao meu lado, enquanto trabalho, faz-me esperas e emboscadas, surpreende-me com tabelas nas minhas pernas, para que eu vá atrás dela, num autêntico jogo do gato e do rato; salta-me, amiúde, para os ombros, quando estou a escrever (como neste preciso momento). E não há portas encostadas ou mal fechadas que a detenham (aprendeu essa arte). É preciso trancá-las mesmo. Caso contrário, aí está ela, desenhando perigosos oitos nos meus passos. Se, um dia destes, ouvirem um estrondo, podem bem adivinhar: tropecei nela e fiz um rebolão. Ia dizer que se tornou na minha sombra, mas isso seria injusto, porque de sombra nada tem. Talvez seja mais pertinente compará-la a uma pequena luz saltitante que se orbitou em mim, precisamente para tornar menos escura a minha sombra.
A Kika é muito mais polida e comunicativa do que muitos seres humanos que conheço e a quem, em vão, tantas e tantas vezes, tenho dado os bons-dias. Devolve-me sempre uma vocalização de ternura (não é miado, é um carinhoso arrulho muito semelhante ao das rolas), sempre que lhe falo com mimo (combinámos que cada uma se expressaria na sua língua: nem eu miaria nem ela tentaria falar). Contudo, por vezes, a troca de “palavras” prolonga-se até ao fim da minha paciência, ou até aos primórdios do sorriso, que logo corrijo, porque os gatos não gostam de nos ver rir muito de perto do seu nariz. E quando chega, vinda de outra divisão (dos quartos, que ficam no andar de cima, por exemplo) faz-se anunciar, “diz” sempre qualquer coisa. É, sem sombra de dúvida, um “Olá!” ou “Olá, papá-gato!”… sei lá! Sei que me saúda à chegada e que isso é, para mim, como uma pequena luz deambulante, uma luz de presença e companhia que me aquece.  
Como pertence ao nobre grupo dos felinos, a minha menina faz questão, como é óbvio, de ter as suas altivas e inerentes singularidades (que aprendi a aceitar e respeitar): não sou eu que a mimo, é ela que me permite que eu o faça; nunca me pede, seduz-me sempre, e concede-me, mui generosamente, o direito de a servir; por minha iniciativa, jamais aceita que a tome nos braços e lhe dê colo. Não gosta de se sentir constrangida. Franze o sobrolho, entoa um claríssimo “Não!” (em miês, claro) e não se cala enquanto eu não devolver Sua Alteza à sua nobre e mui prezada autonomia. É assim, nada há a fazer. Contudo, sempre que me sento no sofá, a repousar um pouco, lá vem ela, fatal como o destino, aninhar-se voluntariamente no meu colo. Dá uma voltinha, enrosca-se no côncavo das minhas pernas e logo começa a ronronar.
Por vezes, quando o cansaço já pesa e o tempo não urge, deixo-me amolecer naquele embalo e… acabo a ronronar também, mergulhado em sonhos felinos: sonho que não tenho obrigações. E durmo des-pre-o-cu-pa-da-men-te!

Estou orgulhoso!



A capa do Diário de Notícias de hoje em perfeita sintonia com a “capa” (de ontem) do Bravio: imagem e cores. 
Feliz coincidência! Estou orgulhoso, of course!

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Leonard Cohen



Já desapareceram, no corrente ano, vários vultos do mundo da canção. Dois deles são lendas, tal como este senhor que nos deixou, fisicamente, esta noite. Embora não lhes tenha dedicado, neste espaço, um punhado de linhas de homenagem póstuma, lamentei, como é óbvio, essas perdas. Admirava esses artistas, mas não faziam parte do meu “diário”. Senti, portanto, que seria demagógico o meu lamento formal. Já o mesmo não sucede com Leonard Cohen.
Faleceu um artista das palavras (ditas, escritas e cantadas) que eu incorporei no meu íntimo território sentimental e intelectual. Foi, muitas vezes, meu “companheiro de estrada” na peregrinação do meu primeiro blogue, o Dardomeu. Foi a sua voz que eu escolhi para chorar comigo o coma de um sonho, um sonho individual e coletivo, o sonho de uma gigantesca classe profissional. Foi à voz de Leonard Cohen que eu entreguei o sal das lágrimas então vertidas: a morte do Dardomeu, alegoria da rendição coletiva, produto violento da minha raiva incontida. Agora, sou eu que lhe dedico, com a sua própria voz, este embalo triste, esta evocação duplamente crepuscular.
A voz e alma que essa voz habita são eternas, mas têm agora o seu universo circunscrito. Leonard Cohen já não acrescentará mais estrelas a esse firmamento. Isso, sim, é realmente triste! É esse o património da morte.

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PS - Peço desculpa aos meus leitores por não cumprir, hoje, a promessa feita ontem. Não posso, no mesmo dia, com poucas horas de permeio, passar do sentido lamento pela morte de  um homem como Leonard Cohen a uma "homenagem" à minha gata. Fica para amanhã.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

A minha gata


Kika

O mundo está a ficar… feiinho e “esquisitoide”! Falar do ensino… também é coisa que, neste momento, não me anda a apetecer (não festejem já, porque é um “desapetite” temporário e efémero). Assim sendo (reticências, por extenso) deu-me para falar da minha gata.
Prometo, para amanhã, em jeito de boas-vindas ao fim de semana, um texto felinamente sedutor. A minha gata merece! 

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Awesome smiles



Podia… opinar sobre vários temas, desde o fim do Obamacare até ao reforço do intervencionismo militar, passando pelo Grande Sonho deste empreiteiro de sucesso que agora é presidente dos Estados Unidos: deixar obras faraónicas (muitas) para a posteridade; agigantar a economia americana à custa da construção. Todavia, remeto os meus leitores para esta premonição, que já tem oito meses. Nós, os poetas, pensamos muito com a intuição e falamos frequentemente apenas com metáforas. Foi por isso mesmo que decidi deixar-vos estes dois sorrisos, autênticas alegorias do Antes e do depois. Palavras para quê?